Vidro Temperado, Laminado e Degradê!

Até algum tempo atrás, todos os vidros automotivos eram temperados. Ao contrário do que se pode pensar, um vidro temperado não contém sal, alho e cheiro verde na sua composição. A têmpera é um tratamento térmico que consiste basicamente em resfriar muito rapidamente o vidro a partir de sua temperatura de transição vítrea (temperatura em que o vidro começa a “amolecer”). Isso faz com que sejam mantidas tensões mecânicas no material (chamadas tensões residuais). Essas tensões aumentam a dureza superficial e a resistência mecânica do produto. Por apresentar tais tensões, o vidro temperado não trinca, ele literalmente explode, e para isso basta um pequeno arranhão em sua superfície (mais sobre isso logo abaixo).

De alguns anos para cá, por determinação da lei e por questão de segurança, todos os pára-brisas (vidros dianteiros) de automóveis produzidos no Brasil são feitos de vidro laminado. O vidro laminado consiste em um sanduíche de duas camadas de vidro prensando uma camada polimérica (plástico, mais precisamente o PVB – Poli-Vinil-Butiral), e não apresenta as tensões residuais do vidro temperado. Os outros vidros do carro (laterais e traseiro) ainda são temperados na maioria dos casos. Para a indústria automobilística, o vidro laminado apresenta duas principais vantagens em relação ao vidro temperado:
1) Quando o vidro temperado quebra mas não se “estilhaça”, os milhares de pequenos cacos que se formam juntos o tornam opaco, impedindo a visão do motorista, que era muitas vezes obrigado a acabar de quebrar o pára-brisa com o próprio punho para poder enxergar. No vidro laminado, são geradas trincas longas que não atrapalham a visão.
2) Quando o vidro temperado se estilhaça, formam-se milhares de cacos cortantes. No vidro laminado os cacos são mantidos unidos pela camada polimérica, não apresentando risco para os envolvidos no acidente.

Dada essa breve explicação, vamos ao “X” da questão.

Começo afirmando que nunca fiz o teste, mas também já ouvi muito essa história da vela e acredito que ela possa ser verdadeira (com ressalvas) pelos seguintes motivos:

O vidro, apesar de frágil, é um material de boa dureza superficial (não pode ser riscado facilmente). Assim, objetos que normalmente colidem com o pára-brisa do automóvel, como pedaços de asfalto, não são capazes de gerar arranhões profundos. No caso dos atuais vidros laminados, por não haver tensões residuais, mesmo que algum objeto duro colida com o vidro em velocidade suficiente, surgirá apenas uma pequena trinca. É claro que me refiro a pequenos objetos. Atirar um tijolo de concreto no pára-brisa e esperar apenas “uma pequena trinca” seria estupidez. No caso dos vidros temperados, se for gerado um arranhão maior

que um certo tamanho crítico, todo o vidro explodirá devido às tensões internas.
É aqui que entra a vela de ignição. A parte branca (cerâmica) da vela é alumina (com “a” no final mesmo – é o óxido de alumínio), que possui alta dureza, muito superior à do vidro. Assim, a alumina risca o vidro com muita facilidade. Dessa maneira, se o vidro for temperado, o impacto da vela pode gerar um arranhão de tamanho suficiente para que as tensões internas “façam seu serviço”, ou seja, não será a vela que estourará o vidro, ela só iniciará o processo. Se for vidro laminado, surgirá apenas um arranhão profundo.



Vidro laminado DEGRADÊ



Quanto ao vidro laminado degradê, o que muda em relação ao laminado convencional é apenas uma pequena faixa na parte superior do vidro, normalmente uma faixa escura.

Quanto às “ressalvas” que mencionei acima, refiro-me ao fato de que não há nenhum tipo de reação química ou mesmo mística entre a alumina da vela e o vidro. Não bastaria encostar a vela no pára-brisa para que ele exploda. Seria necessário o emprego de ao menos uma pequena força para que o arranhão possa acontecer e iniciar o processo chamado de “propagação catastrófica da trinca”.

Os vidros para “box” de banheiro (os famosos Blindex) são temperados. Você pode fazer essa experiência em casa, sob sua conta e risco, e nos contar o resultado. Tenha total consciência que você provavelmente irá quebrar seu “box” que custa uns 500 reais. Peça antes para o papai.

PS: O parágrafo acima, apesar de cientificamente correto, não deve ser levado a sério!